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CASA DE RETIRO E ENCONTROS

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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Elementos marcantes da espiritualidade vicentina


Voltemos nossa mente e nosso coração para São Vicente de Paulo, homem de ação e de oração, de organização e de imaginação, de comando e de humildade, homem de ontem e de hoje. Que aquele camponês das Landes, convertido pela graça de Deus em gênio da caridade,  ajude todos nós a pôr mais uma vez as mãos no arado – sem olhar para trás – para o único trabalho que importa, o anúncio da Boa Nova aos Pobres. 
Estas palavras do Papa João Paulo II aos membros da Congregação da Missão, em 1986, indicam a riqueza e a atualidade do testemunho de vida e da experiência espiritual de São Vicente de Paulo.
Conhecido como Pai dos Pobres, Gigante da Caridade, Arauto da Ternura e da Misericórdia de Deus, São Vicente teve uma vida plena e fecunda de obras em benefício sobretudo dos mais abandonados. De espírito dinâmico e empreendedor, tomou iniciativas e liderou a execução de várias obras; foi um organizador das boas vontades, um formador de seus auxiliares e de multiplicadores; não fez tudo sozinho, soube suscitar colaboradores, ganhou adesões entusiastas e despertou a criatividade dos que o apoiavam; e ainda foi um colaborador leal em obras iniciadas por outros, sem pensar que só ele sabia fazer bem as coisas ou que só iriam dar bons resultados se fossem feitas por ele, a seu modo.
No entanto, a riqueza de seu testemunho não se reduz e nem se esgota na fecundidade e na eficácia operacional das suas atividades. O que dá sentido, unidade e dinamismo à vida e à obra de São Vicente é o seu grande e apaixonado amor pela pessoa de Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, que ele soube encontrar na pessoa dos Pobres. Pobre que não queria ser pobre, São Vicente não idealizou os Pobres; foi a eles, viu o sofrimento, a fome, o abandono pastoral, enxugou suas lágrimas, ouviu seus gritos, sentiu o próprio hálito dos que morriam amontoados nos corredores dos hospitais. Aí descobriu, na face sofrida dos Pobres, a imagem desfigurada de Cristo Jesus, o Servo Sofredor.
Os Pobres conduziram São Vicente de Paulo ao encontro consigo e com Deus. Sem cair em teorias abstratas e intimistas, descobriu, à luz do mistério da Encarnação, que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que assume a pobreza para dar-se totalmente à salvação dos Pobres – O Senhor enviou-me para evangelizar os Pobres  (Lc 4,18). O espírito de Cristo é um espírito de caridade e de estima ao Pai. A verdadeira felicidade está, pois, em identificar a presença de Cristo no mundo dos Pobres e em servi-los de todo o coração. São Vicente percebeu que não podemos garantir melhor a nossa felicidade eterna do que vivendo e morrendo no serviço aos Pobres, colocando-nos nos braços da Divina Providência e numa total renúncia de nós mesmos, para seguir Jesus Cristo (SV III, 392 / ES III, 359). Encontrou a alegria e a razão de viver em Cristo, o Verbo Encarnado, expressão máxima do amor misericordioso de Deus Pai que enviou seu Filho para evangelizar os Pobres.
O Pobre é sacramento de Cristo. Servir o Pobre é servir o próprio Cristo. São Vicente dizia que, diante de um Pobre, devemos virar a medalha (SV XI, 32 / ES XI, 725) e ali encontrar o próprio Cristo desfigurado em sua paixão. Os Pobres são nossos senhores e amos (SV X, 610 / ES IX, 1137). São membros sofredores de Nosso Senhor e nossos irmãos. Por isso, a exemplo de Jesus, é preciso servi-los, material e espiritualmente, com especial dedicação. A exemplo de Jesus, é preciso ir ao encontro dos mais abandonados para deixar-se interpelar por sua realidade concreta e pôr-se a serviço deles de modo efetivo, anunciando-lhes o Evangelho da caridade, da misericórdia e da solidariedade de Deus, que se faz próximo do ser humano caído à beira do caminho (cf. Lc 10, 25-37).
O amor de Jesus Cristo conjuga o amor a Deus e ao próximo, deve ser um amor afetivo e efetivo, dentro de um profundo amor missionário à Igreja e totalmente comprometido com a missão e a caridade: A caridade está acima de todas as regras e é preciso, pois, que todas as coisas a ela se relacionem. É uma grande dama, é preciso fazer o que ela ordena (SV X, 595 / ES IX, 1125). Numa conferência sobre a finalidade da Congregação da Missão, São Vicente disse aos Missionários: (...) Fazer Deus conhecido aos Pobres, anunciar-lhes Jesus Cristo, dizer-lhes que o Reino dos céus está próximo e que ele é para os Pobres. Oh! Como isso é grandioso (SV XII, 80 / ES XI, 387).
Nesta tarefa de caridade e anúncio do Evangelho aos Pobres, Cristo é a regra da Missão (SV XII, 130 / ES XI, 429). Se é verdade que somos chamados a levar, por toda parte e ao nosso redor, o amor de Deus, se com ele devemos inflamar as nações, se temos a vocação de levar esse fogo divino ao mundo inteiro (...), quanto devo eu mesmo arder com este fogo divino! (SV XII, 263 / ES XI, 554). Só um coração inflamado pelo amor de Deus é capaz de contagiar os outros. É necessário, pois, revestir-nos dos sentimentos e atitudes de Jesus Cristo. Esta profunda convicção levou São Vicente a percorrer em sua vida e a propor aos seus colaboradores um caminho de santidade, totalmente centrado em Cristo Evangelizador dos Pobres. Uma espiritualidade da Encarnação, onde fé e vida, oração e ação caminham juntas – Amemos a Deus, meus irmãos, amemos a Deus, mas que seja com a força de nossos braços e com o suor de nosso rosto (SV XI, 40 / ES XI, 733).
Na contemplação e no seguimento de Cristo evangelizador dos Pobres, faz-se, pois, necessária uma vivência espiritual e missionária de desinstalação, de ida ao encontro do Pobre, com um profundo espírito de estima e misericórdia, procurando agir como Cristo, com simplicidade, humildade, mansidão, mortificação e zelo. Tudo seja em busca da vontade de Deus e impregnado por uma sólida vivência de fé, cultivada através de uma intensa vida de oração encarnada na realidade e no compromisso concreto – Dai-me um homem de oração e ele será capaz de tudo (SV XI, 83 / ES XI, 778).
Na descoberta de Cristo entre os Pobres e na adesão a ele, São Vicente de Paulo, sempre dócil à ação do Espírito, tornou sua vida toda teologal, fortemente marcada pela oração (adoração, agradecimento, súplica, intercessão, reparação), pelo Evangelho, pela Igreja; visivelmente comprometida com os outros, sobretudo os mais pobres; inteiramente orientada pelo Verbo Encarnado e por seus valores, seus motivos, seus critérios, seu modo de agir. Seu testemunho constitui, pois, um fecundo e seguro caminho de santidade, que devemos percorrer em vista da realização da missão de Jesus Cristo, que quer reinar em nossos corações e que quer continuar a fazer por meio de nós o que fazia durante sua vida terrena (cf. SV XII, 79 / ES XI, 387).














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